Textos curatoriais
Galeria Evandro Carneiro

"...Sobre os bichos que ora lançamos, seu filho Marcos conta que, em 1998, encontrou o desenho técnico original dos anos 1960 em um envelope. Roberto ainda estava vivo e os dois imediatamente começaram a rememorar o contexto em que tudo se originou: a infância de Marcos e Isabella, os dois filhos do artista que inspiraram a criação dos bichinhos em papel espalhados ludicamente pela casa do Joá. Iniciou-se, assim, a brincadeira entre pai e filho que trabalhavam juntos no escritório de arquitetura e design. Durante 23 anos, criaram novos modelos para além dos originais e passaram para os programas de computador, sempre pensando a execução do projeto em papel e ligada à editoração gráfica. O desafio era não perder o conceito. A concepção original era em papel e o rigor conceitual de Roberto o fez perseguir a ideia de não perder material durante a confecção, ou seja, não se poderia romper as matrizes dos bichos durante a execução. Foram anos pensando formatos editoriais diferentes, entre livros, folhetos e cartões de natal, com propostas mais didáticas ou mais lúdicas.

 

Até que em 2000, quando reformavam a sede da OAB-RJ, cujo projeto envolvia o uso de alumínio, Marcos foi a Camaçari (Alcoa na Bahia) e teve a percepção de tentar desenvolver os bichos neste material. Havia, contudo, a exigência conceitual de não se perder material em cortes. O conceito original se dava em dobraduras!

 

Em 2012 Roberto faleceu sem ver o resultado da brincadeira apaixonada dos bichos. Marcos desmotivou com a perda do pai, afinal trata-se de um projeto extremamente afetivo. Mas em julho de 2018, entusiasmou-se com uma nova tecnologia a laser capaz de dar forma à chapa de aço, material maleável, que se permite moldar e dobrar, sem perdas nem remendos. Dobras duras de amigos animais tão queridos que foram se ampliando nas mãos criativas do designer Marcos Scorzelli. Assim nasceu a bicharada que ora lançamos, em memória desse grande artista que foi Roberto Scorzelli e com a ternura que esta história encerra. Ou inicia".   

 

Laura Olivieri Carneiro

Dezembro 2018

Museu do Açude - Museus Castro Maya

Scorzelli Megabichos

A dualidade rigor geométrico X humor dominou a produção do arquiteto e artista plástico Roberto Scorzelli (1938-2012). Dentre as temáticas habitualmente exploradas por ele sobressaem os bichos, a funcionarem como um veio condutor para o exercício das pesquisas formais relativas àquelas facetas. Assim, sua obra ficou marcada por décadas de desenhos de animais que culminaram no álbum de gravuras Bestiário, lançado em 1976. No entanto, outra vertente de trabalho relacionada ao mundo animal havia ficado oculta como um segredo bom de família...até recentemente, quando seu filho, o designer Marcos Scorzelli, assumiu aquele projeto de forma autoral, mudando o curso dessa história.

Uma história que começou com o pai moldando bichos em papel para a diversão das crianças; avançou através dos anos com a parceria de pai e filho no escritório de arquitetura, quando aproveitavam brechas no trabalho para criarem cada vez mais bichos, sem recorte ou perda de papel, a partir somente do círculo, quadrado ou retângulo; caminhou como um desafio para Marcos, após a morte de Roberto Scorzelli, para encontrar a forma de tirar os bichos da bidimensionalidade e viabilizá-los como esculturas. Nesse percurso, alguns materiais como acrílico ou ouro foram experimentados até que chapas de aço carbono se revelassem o veículo ideal.

Ressignificados agora por Marcos, os bichos finalmente tomaram corpo. A forma tridimensional no espaço é alcançada simplesmente pelo vinco e corte da chapa.  Soldas e aparas são definitivamente proibidas! Depois, as cores vibrantes concorrem para personalizá-los. Marcos brinca ainda com as dimensões, criando desde miniaturas a Megabichos. Permanecem, no entanto, aqueles mesmos sentidos norteadores – o rigor geométrico e o humor - que estavam na origem dos bichos. Seus animais são ao mesmo tempo a continuidade do sentido lúdico e a problematização da geometria. Nesse sentido, adequam-se ao desenvolvimento de um viés educativo, explorado agora nessa exposição. A aparente simplicidade da transformação de uma forma geométrica plana em um volume espacial complexo, travestido de figuras de bichos coloridos, dinâmicos e cheios de personalidade, vai certamente encantar os jovens. Estes e também o público em geral vão usufruir deste zoo de aço em um ambiente no qual os Megabichos parecem estar “em casa”: a floresta ajardinada do Museu do Açude.

Anna Paola Baptista - Curadora Museus Castro Maya

Agosto 2019

  • Facebook ícone social
  • Instagram ícone social

Desenvolvido por Scorzelli Design    ::    Fotos do site Bella Scorzelli @bella.scorzelli